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Museus - Museu Vivo da Memória Candanga Exibe a versão de impressão da página Retorna para a página anterior


Uma visita ao começo de tudo

Muitos brasilienses não sabem que o projeto de Brasília começou a tomar forma exatamente quando os candangos e os que dirigiam as obras se instalaram a partir de 1956 na Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante, nas primeiras ruas abertas, por tratores dirigidos por pioneiros como Bernardo Sayão. E que ao lado da Cidade Livre, seria erguido o primeiro hospital do Distrito Federal, que levaria o nome de Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira. Pois este antigo hospital de madeira, provisório como tudo que se construiu para servir de suporte ao surgimento de Brasília, é hoje o mesmo local em que está instalado o Museu Vivo da Memória Candanga. O nome já diz tudo.




O MVMC é o mais completo conjunto arquitetônico a lembrar aqueles anos pioneiros e, para nós todos, heróicos. Não bastasse essa referência, de núcleo original do patrimônio histórico do Distrito Federal, o MVMC tornou-se também um importante centro de referências para a transmissão dos chamados saberes e ofícios que dão testemunho da inteligência e da criatividade das diferentes manifestações regionais que aqui vieram preparar uma nova síntese da cultura brasileira. Hoje, o Museu Vivo da Memória Candanga é a menina-dos-olhos da história de Brasília e o coração onde pulsam os ideais da educação patrimonial e da melhor convivência entre pioneiros e as novas gerações de brasilienses. Temos todos o dever de cuidar de sua preservação, de dar continuidade à sua vida e seu destino.Basta uma visita ao Museu Vivo pra que o brasiliense compreenda tudo sobre as origens de todos que nasceram aqui, viveram, vivem e aprenderam a amar essa cidade.



Registro e difusão

O conjunto do Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira foi tombado em 1985. A partir desta data, o então Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal (DePHA), hoje Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico, da Secretaria de Cultura do DF, desenvolveu para o espaço um projeto de revitalização, visando restituir ao HJKO o papel sócio-cultural que o caracterizou durante toda a sua história, reintegrando-o à dinâmica urbana contemporânea, através de sua reutilização espacial, com funções compatíveis com a nova realidade sócio-econômica da região. O propósito do projeto de revitalização do conjunto do HJKO é o de preservar e valorizar o sítio histórico, criando um espaço de encontro com a riqueza cultural da cidade. O complexo HJKO é um espaço de registro, preservação e difusão da história e da cultura candanga. Pelo projeto, o Museu Vivo é enfocado sob dois pontos de vista: a cultura sendo consolidada por meio do resgate da história e do patrimônio cultural local e a produção cultural através do incentivo à troca entre diversos saberes e ao desenvolvimento, transformação e aprimoramento do fazer.


Nesta perspectiva, foram projetadas intervenções no espaço físico, cujos critérios objetivaram conciliar as novas necessidades de utilização do espaço com a preservação dos elementos essenciais da tipologia construtiva das obras da fase inicial da construção de Brasília. Em 1986 iniciou-se o processo de restauração das edificações que compõem o conjunto do HJKO. Foram restauradas sete das oito casas da alameda originalmente utilizadas como residência de médicos, quatro dos sete galpões de alojamento e de serviços, e a edificação que abrigava o atendimento hospitalar e ambulatorial. A partir do restauro das edificações, inicia-se a implementação de ações com vistas à implantação do Museu Vivo da Memória Candanga e das Oficinas do Saber Fazer, no espaço do conjunto do HJKO. Consolidando a revitalização do HJKO, ao longo dos anos, diferentes programas e projetos vêm sendo desenvolvidos, com o intuito de resgatar a memória das gerações passadas, atuar junto às gerações presentes e preservar para as gerações futuras.



Os visitantes


Tanto os visitantes que percorrem o espaço pela primeira vez quanto os pioneiros que nos visitam, sentem-se emocionados, quer seja pela importância do Hospital no contexto histórico que caracterizou o período inicial de construção de Brasília, quer seja pelas ações e programas desenvolvidos atualmente no espaço. No que se refere à visitação escolar, às novas gerações, devemos considerar a curiosidade e a estranheza ao se conhecer edificações únicas e histórias passadas em uma época que antecede à sua própria existência e, sobre a qual a criança muitas vezes não tem referências.



O acervo


O Museu Vivo se empenha em preservar o acervo que possui, implantando ações para o restauro, acondicionamento, guarda e documentação das coleções. Também recebe doações de peças do período da construção da cidade, bastando para tanto o levantamento de dados acerca das peças.



As oficinas


Na produção artesanal, buscamos a valorização, pesquisa e divulgação, bem como a troca de riqueza e diversidade cultural característica do processo de formação da cidade. Trabalhamos para a transformação e o aperfeiçoamento das linguagens e técnicas tradicionais, através da interação com tecnologias modernas, objetivando melhoria do artesanato candango. Investimos também na capacitação da mão-de-obra, fomentando a produção artesanal.



Participação da comunidade

É de fundamental importância para o MVMC a parceria com o empresariado local. Para tanto, estamos nos empenhando em aprovar projetos junto à Secretaria do Patrimônio, Museus e Artes Plásticas do Ministério da Cultura, na área do mecenato, o que viabilizaria tais parcerias. O estabelecimento de parceiras com diferentes instituições de apoio à cultura, à educação e à capacitação profissional, ao patrimônio e aos museus, tem sido uma prioridade e uma necessidade do MVMC para a realização de projetos e implantação de programas. Ao longo dos anos, tivemos como parceiros o Sebrae, a Secretaria do Trabalho, Secretaria de Educação, Universidade de Brasília, Sematec, FAP-DF, Novacap, Fundação Vitae e Embaixada da Alemanha, entre outros.


Museu Vivo da Memória Candanga

VIA EPIA Sul, lote D/ Conj HJKO Setor de Postos e Motéis
CEP: 71.735-900 - Núcleo Bandeirante
fonefax: 3301-3590
E-mail: mvmc@sc.df.gov.br
funcionamento: terça a domingo, das 9h às 17h


Os primórdios

Para que Brasília fosse erguida em três anos e dez meses na imensa solidão do descampado e do cerrado do Planalto Central, foram necessárias a determinação política, o plano moderno, o progresso econômico e ainda a resposta dos brasileiros que vieram das diversas regiões do país atendendo à convocação de Juscelino Kubitschek. E foram necessários ainda os acampamentos e vilas improvisadas para os operários, engenheiros e profissionais que chegaram com a missão de erguer a cidade. Para apoiar as obras de infra-estrutura na construção do Plano Piloto, foram abertas, em 1956, as principais avenidas do Núcleo Bandeirante, que logo ficou conhecido como Cidade Livre, porque quem abrisse um comércio não pagava impostos. A primeira loja foi uma padaria e em menos de dois anos a população chegava a 6.000 habitantes. A vida da Cidade Livre, bem como dos acampamentos pioneiros, tinha uma data-limite, devendo restringir-se ao período de construção de Brasília. Em 1957, já funcionavam na Cidade Livre armazéns de secos e molhados, casas de tecidos, restaurantes, barbearias, marcenarias, açougues, cinema, escolas, pensões e hotéis.


A Cidade Livre foi uma verdadeira cidade antes mesmo de Brasília existir. Seus moradores acabaram por criar um movimento reivindicando a fixação, só admitida oficialmente através de uma lei em 1961. Na Candangolândia, que em sua primeira fase foi chamada de Lonalândia, estavam os acampamentos dos operários e ainda a sede da Novacap. Entre a Cidade Livre e a Candangolândia, surgiu o HJKO, hospital mantido pelo IAPI, instituição cujo nome também foi dado a uma das invasões surgidas na área logo atrás do hospital.


O primeiro hospital


Construído em apenas 60 dias e inaugurado em 06 de junho de 1957, o Juscelino Kubitschek de Oliveira foi o primeiro hospital a funcionar na cidade. Órgão de assistência médico-hospitalar do IAPI (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários) no Distrito Federal, inicialmente, prestou serviços aos trabalhadores da construção civil. Seus 1265 m2 de área edificada em madeira, abrigavam ambulatório, centro cirúrgico, serviços gerais, administração, residência para médicos e funcionários com famílias e alojamentos. A parte hospitalar, que funcionava 24 horas por dia, era servida dos mais modernos equipamentos e instrumentos da época, e continha 50 leitos; oito enfermarias dispostas em duas alas, feminina e masculina; duas salas cirúrgicas; aparelhos de raio-x; laboratório de análise clínica; sala de ortopedia; maternidade; berçário; farmácia e gabinete dentário com raio-x. O primeiro diretor foi o médico goiano Edson Porto.


Localizado entre os três principais acampamentos migratórios de pioneiros - Cidade Livre, Lonalândia (mais tarde Candangolândia) e Invasão do IAPI, o HJKO (as siglas, nesse e em outros casos, acabava sendo o nome de uso mais comum entre os pioneiros) esteve em atividade até 1968. Com a inauguração do Hospital Distrital, no Plano Piloto, em 1960, o HJKO entrou em lento declínio. A partir de 1968, passou a funcionar somente como posto de saúde atendendo aos moradores do Núcleo Bandeirante e das invasões das áreas circunvizinhas ao hospital. Em 1974, o HJKO foi totalmente desativado com a implantação dos serviços de saúde no Núcleo Bandeirante. Contudo, permaneceram habitando a área, em situação irregular, muitos ex-funcionários do hospital e outras famílias que foram agregando-se à população da área, tornando-se uma das maiores invasões do DF.


Tombamento e restauração


Em 1983, ocorrem tentativas de desocupação e demolição das edificações por parte do IAPAS, então proprietário da área. As casas já estavam bastante deterioradas. Vem então um período de intensos protestos e organização comunitária em favor do tombamento do espaço. Em 13 de novembro de 1985, o conjunto arquitetônico do HJKO foi tombado pelo GDF, através do decreto número 9.036, sendo considerado patrimônio histórico e artístico da cidade. Os moradores foram transferidos para a Candangolândia.

A partir de 1987, inicia-se o processo de restauração das edificações do conjunto de acordo com um projeto de restauro e revitalização do espaço proposto pelo DePHA, Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico do DF. Em 1990, o lugar passa a abrigar o Museu Vivo da Memória Candanga, com seu amplo projeto ocupando toda a área do conjunto. Hoje, este espaço representa uma das últimas referências arquitetônicas características do período inicial de construção da cidade.


O projeto de preservação e revitalização do conjunto arquitetônico do HJKO buscou não só a restauração de um testemunho histórico, mas sobretudo, o resgate e a integração da condição de bem utilitário à dinâmica urbana, através de sua reutilização espacial em novas funções, compatíveis com a realidade socio-econômica contemporânea. O Projeto HKJO foi o projeto-piloto de um novo conceito de preservação e revitalização dos núcleos significativos em Brasília, tendo como premissa básica o resgate do indiscutível valor histórico e sua nova destinação a atividades de caráter educacional, cultural, ocupacional e recreativo. Para o governador Joaquim Roriz, “o Museu Vivo da Memória Candanga é um berço da memória de Brasília. Um grande parque arborizado que reproduz o ambiente da vida pioneira, num conceito moderno e abrangente de museu, que convida a um passeio pela história através de exposições e do fazer manual, possibilitando de forma lúdica um encontro com a informação e formação, enfim a cultura e a identidade de nosso povo”.


Patrimônio e cultura


Topograficamente situado num platô privilegiado do Núcleo Bandeirante, o Museu Vivo da Memória Candanga é formado por 18 edificações originais do conjunto HJKO. Em 26 de abril de 1990, o Museu foi inaugurado, depois de minucioso trabalho de restauro feito por arquitetos, engenheiros, antropólogos e técnicos. Espaço de registro, preservação e difusão da história e da cultura candanga, o Museu Vivo da Memória Candanga, no cumprimento de seu papel social, propõe e realiza ações, participando da educação e da formação de crianças, jovens e adultos em diferentes programas.
A instituição Museu é, portanto, compreendida como um espaço de transformação social e de desenvolvimento educacional e cultural da sociedade, com a função de resguardar identidades, estabelecer vínculos com o passado, fazer conhecer o presente. Duas vertentes norteiam os rumos do MVMC: a do patrimônio histórico-cultural, com o resgate do processo histórico e da memória sócio-cultural e a vertente da cultura em processo, incentivando a troca entre os diversos saberes e o desenvolvimento e aprimoramento do fazer. O MVMC é formado por espaço para oficinas, restaurante, administração, reserva técnica, auditório, sala de exposições temporárias e de lona duração e espaço para apresentações artísticas e eventos, além de amplo espaço arborizado.


Oficinas para alunos e professores

O Museu Vivo da Memória Candanga (MVMC) vem desenvolvendo nas Oficinas do Saber Fazer diferentes ações voltadas à formação de mão-de-obra na área artesanal. Espaços de troca de idéias, de conhecimento e de trabalho, as oficinas do Museu têm por objetivo a valorização, o resgate e a divulgação de saberes populares, favorecendo a interação dos mesmos com novas tecnologias, designers e possibilidades inovadoras de utilização, em conformidade com as atuais tendências mercadológicas. Atualmente encontram-se em funcionamento as oficinas de Cerâmica, Têxtil e Papel. Nelas são realizados cursos, seminários, worhshops e atelier livre e orientado, propiciando a capacitação, qualificação e o aperfeiçoamento, fruto do contato direto entre artesãos, artistas, comunidade e técnicos especializados, associando uma maior qualidade às técnicas tradicionais de produção. O MVMC desenvolve também o programa Refazendo a Trama, direcionado para a capacitação de multiplicadores da Secretaria de Educação do DF, nas áreas das Oficinas do Saber Fazer. O programa propicia ao professor o aprendizado, a reflexão e a possibilidade de inserção de novas tecnologias em sua prática pedagógica, transformando-o assim, em importante agente na difusão e transmissão de saberes populares e na caracterização da cultura candanga.


Poeira, Lona e Concreto - As marcas do tempo permanecem

A exposição permanente Poeira, Lona e Concreto, no Museu Vivo da Memória Candanga, foi projetada para propiciar ao visitante, aos moradores de Brasília e às novas gerações, especialmente os estudantes, uma visão da evolução histórica da cidade desde o seu marco-zero. Foi concebida pela equipe do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico, na época coordenada pelo arquiteto Silvio Cavalcante. Silvio, atualmente trabalhando na restauração e preservação da cidade de Pirenópolis, também é responsável pelo nome Museu Vivo da Memória Candanga e comenta: “na época, até os museólogos protestaram contra a denominação, deu uma certa polêmica, mas hoje a expressão Museu Vivo é utilizada em vários locais do país. Museu Vivo no sentido de interatividade, de museu-escola, com atração para todos os públicos e uma dinâmica própria. O Museu Vivo é espetacular. Foi um passo importante na recuperação de uma arquitetura muito genuína no país. As casas do HJKO foram projetadas pela equipe de Niemeyer e são hoje o mais íntegro conjunto de arquitetura de madeira da época da construção”.

Na exposição Poeira, Lona e Concreto, o visitante tem acesso a diferentes ambientações que exibem fotografias, textos, instrumentos, móveis e objetos da história inicial de Brasília, desde os documentos da Missão Cruls (que no final do século 19 fez a primeira exploração científica no Planalto com vistas à mudança da capital), passando pelos desenhos de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, pela configuração dos acampamentos pioneiros e chegando a momentos fundamentais da cultura que se formou na cidade. Entre os materiais expostos, destacam-se um quarto típico do mais importante hotel da época, o Brasília Palace Hotel, um consultório médico do HJKO, uma barbearia da Cidade Livre e o laboratório e acervo do fotógrafo amigo de Juscelino, Mário M. Fontenelle. Outros dois fotógrafos que completam a exposição são Peter Scheier (também com fotos da época da construção) e Joaquim Paiva (com um registro impecável do Núcleo Bandeirante ainda preservado em sua arquitetura original, da década de 70). O acervo desse período consta ainda de equipamentos, fotografias, flâmulas, roupas, cartazes e objetos em geral. Ao lado do Catetinho, o Museu Vivo revela nesta exposição as origens da vida candanga antes da inauguração de Brasília, com sobriedade e emoção.


Outra exposição do MVMC é a que contempla o artesanato candango.Renovação e Tradição - Novos Caminhos expõe produtos artesanais resultado da interação entre artesãos do DF e designers profissionais com experiência no setor artesanal. Com vistas a transformar a produção artesanal contemporânea em atividade economicamente viável, este trabalho em torno da criação de produtos inovados, foi desenvolvido a partir de parceria entre o Museu Vivo da Memória Candanga e o Sebrae-DF. No âmbito da educação, o Museu oferece à população em idade escolar um Programa de Visitas Guiadas à exposição Poeira, Lona e Concreto. Este trabalho propõe o intercâmbio entre a escola e o Museu, e busca sensibilizar, crianças e jovens, para o conhecimento dos conteúdos referentes à história de Brasília.


Fontenelle, o fotógrafo candango

Mário M. Fontenelle nasceu em 1919 em Parnaíba, Piauí. Viajando por várias capitais brasileiras, tornou-se mecânico de pista e mais tarde mecânico de bordo. E foi voando que conheceu o presidente Juscelino Kubitschek, de quem se tornou amigo. Tornou-se cinegrafista e fotógrafo de JK, tendo sido também contratado pela Novacap. Das lentes das máquinas fotográficas que ganhou de presente de JK e de Jânio Quadros, saíram as centenas de fotos que registram a construção de Brasília passo a passo, desde o chamado sinal da cruz cortando o cerrado deserto até o detalhe da construção dos principais palácios e monumentos. Nas ruas da Cidade Livre, Fontenelle também flagrou o vaivém dos candangos, dos primeiros habitantes, das primeiras lojas. No final da vida, recebeu homenagem dos fotógrafos profissionais de Brasília e ainda registrou flagrantes poéticos de uma Brasília antes sonhada e agora majestosa em sua luminosidade e paisagens e pontos futuristas. Fontenelle morreu em 1986, praticamente abandonado, num asilo do Núcleo Bandeirante. Sua trajetória de fotógrafo está registrada no livro-álbum Minha Mala, Meu Destino, lançado em 1988, com a coordenação de Raquel Cavalcante. O livro, que se tornou um objeto raro, pode ganhar uma nova edição em breve.


A poeira da construção de Brasília

"Sobrevoando o Planalto é que se tinha uma visão de conjunto dos trabalhos que ali estavam sendo realizados. Caminhões iam e vinham, levando ou trazendo material de construção. Tratores, às dezenas, revolviam a terra, abrindo clareiras no cerrado. Estacas eram fincadas, para ereção dos andaimes que emprestavam à paisagem o aspecto de um gigantesco canteiro de obras. Aqui e ali, já se viam as torres metálicas das estações de telecomunicações, através das quais centenas de mensagens eram enviadas, pedindo cimento, cobrando remessas de material elétrico, exigindo jipes, caixas-d'água, tambores de gasolina, gêneros enlatados, peças de veículos.

Era um mundo que despertava no cerrado, ressoante de sons metálicos e estuante de energia humana. Os guinchos bracejavam junto aos andaimes, erguendo pedras e assentando vigas. Crateras eram abertas por toda parte, e, por elas, desapareciam toneladas de concreto. Martelos batiam, sirenas soavam, motores roncavam, enchendo o chapadão de ruídos estranhos. Ao longo das estradas de chão, ainda vermelhas da terra recém-cortada, enfileiravam-se as armações de pinho que iriam receber ou já haviam recebido os vergalhões de ferro que dariam consistência às vigas de cimento armado. Por toda parte, homens trabalhando, engenheiros consultando plantas, veículos despejando material".

Texto de Juscelino Kubitschek