| Teatro
Nacional Claudio Santoro - Entrevistas e Comentários |
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Entrevista exclusiva com
Oscar Niemeyer
Publicada no informativo do
APTP número 14, novembro de 2001
Como foi mesmo o ponto de partida em sua concepção
do Teatro Nacional? A pirâmide veio antes
da encomenda ou na própria inquietação
para resolver o problema?
Eram dois teatros a projetar, e isso explica a
solução adotada.
Em que circunstâncias você o desenhou?
É verdade que o desenho foi feito em três
dias de carnaval? Em Brasília mesmo ou
no Rio?
Em Brasília, tudo foi feito a correr. Elaborei
o projeto durante um carnaval. No dia seguinte,
convoquei um especialista em acústica da
Alemanha, que, uma semana depois, já estava
em Brasília nos atendendo.
E o fato de todos identificarem como uma pirâmide
asteca, é correto do ponto de vista arquitetônico?
É engraçado. Em arquitetura, qualquer
forma que corresponda às funções
internas é adequada e, quando ela cria
surpresa, e os leigos dela se ocupam curiosos,
melhor ainda. O espanto faz parte da boa arquitetura.
Quando foi construído o teatro que elaborei
para o Espaço Oscar Niemeyer no Havre,
França, ninguém me indagou sobre
a razão da forma adotada. De acústica,
muito menos. E quando o Ministro da Cultura da
França, Jacques Lang, compareceu à
inauguração, como o elogiou!
O engenheiro e poeta Joaquim Cardozo foi o projetista.
Quais foram os desafios impostos a ele nessa obra?
Nenhum.
O senhor acompanhou alguma fase das obras? O que
sentia?
Tranqüilamente. Como não existia um
programa, e a obra caminhava mais rapidamente
do que o usual previ para os serviços anexos
do Teatro Nacional espaços tão generosos
que sabia neles ser possível acomodar os
programas mais complexos.
Além do Teatro Nacional, construiu outros
teatros pelo mundo?
Projetei e construí muitos teatros e auditórios.
Na França, na Itália, na Argélia
e no Brasil. Construídos e de maior vulto
foram o grande teatro do Espaço Oscar Niemeyer,
no Havre e o de Brasília, realizado 40
anos atrás. Em Araras, interior de São
Paulo, projetei e foi realizado um teatro mais
modesto, mas que dizem funcionar bem. Agora tenho
em construção dois teatros diferentes,
com o palco abrindo também para o exterior,
uma novidade que dará aos teatros um sentido
mais popular que me agrada particularmente.
O Teatro Nacional se insere no seu grande projeto
chamado Conjunto Cultural da República
ou deve ser considerado à parte?
Integra-se no que chamamos Conjunto Cultural da
República e vai completar todo o complexo
arquitetônico do centro do Plano Piloto
de Brasília.
O senhor chegou a assistir a algum espetáculo
nesse teatro? Tecnicamente, reclama-se da acústica
da Villa-Lobos. Tem solução?
Sim. Quando se projeta um teatro, é com
os técnicos especializados que se trabalha.
E, como disse, o técnico incumbido de sua
acústica era, naquela época, o mais
credenciado na Alemanha. Mas o problema é
complexo, e sempre fui a favor - quando sugerem
- de que outros sejam, se necessário, convocados.
A técnica está sempre evoluindo,
e com relação à acústica
deve acontecer o mesmo. No teatro que projetei
para Araras, nunca ouvi críticas nesse
sentido.
Entrevista exclusiva com
Asta-Rose Alcaide
A história de Asta-Rose
Alcaide se confunde bastante com a história
do Teatro Nacional. É por isso que ela
está realizando pesquisas e organizando
uma publicação que será o
primeiro livro contando a história do Teatro
Nacional. Asta-Rose Alcaide nasceu em Joinville,
Santa Catarina. Asta estudou no Colégio
Olinda, de São Paulo, e fez Ballet e Dança
Moderna com Chinita Ullman e Vaslav Veltchek,
em São Paulo. Casou-se com o tenor português
Tomas Alcaide, considerado o maior tenor na história
da música em Portugal e com quem visitou
Brasília pela primeira vez na década
de 60.
Em Lisboa, foi cenógrafae colaboradora
em várias montagens de óperas.Para
Brasília, mudou-se definitivamente na década
de 70. Aqui, entre outras atividades, fundou a
Associação Ópera-Brasília,
foi assessora da OSTNCS, da Casa Thomas Jefferson,
diretora artística do Teatro Nacional e
colaboradora de estações de rádio
na Europa e jornais de Brasília. Asta também
faz direção, cenografia e produção
em ópera desde a década de 60.
Como a senhora veio para Brasília? O que
achou da cidade logo que passou a conhecê-la?
Iniciei a minha vida em Brasília em dezembro
de 1975. Mas, a cidade não me era completamente
desconhecida. Em 1962 vim conhecer a capital brasileira
como turista, e vim acompanhada de Tomás
Alcaide, com quem era casada.. Ficamos no Hotel
Nacional. Fizemos o tour em uma hora e achei muito
interessante ver com os meus olhos o que já
tinha visto em filmes e fotografias. Uma visão
futurista, ainda mais para quem vinha de Lisboa.
Achei a cidade um pouco triste e vazia e fiquei
muito aliviada ao entrar no avião de volta
para o Rio de Janeiro.
Quando fez sua primeira visita ao Teatro Nacional?
Que impressões guarda daquele momento?
Fiz uma tentativa de ir conhecer o teatro na primeira
visita. Em 1962, existia a penas a estrutura em
cimento do Teatro. Tentei visitá-lo, mas
não encontrei ninguém para me dar
informações ou deixar entrar. Foi
uma experiência muito frustrante.
E quando a senhora veio definitivamente para Brasília?
Em Lisboa, fui durante 15 anos assistente cultural
da Embaixada Americana. Devido ao clima desagradável
que se instalou durante os primeiros anos após
a Revolução dos Cravos, senti o
desejo de voltar ao Brasil. Naquela altura foi-me
oferecido o lugar de assistente cultural na Embaixada
Americana em Brasília, e depois de hesitar
durante seis meses, resolvi finalmente aceitar.
Estou há 25 anos em Brasília e nunca
me arrependi um só momento de ter vindo.
Apaixonei-me pela cidade a ponto de hoje me considerar
brasiliense.
Que motivos levaram-na a escrever uma história
ido Teatro Nacional? Como é mesmo o seu
projeto?
É um projeto no qual penso há muito
tempo, exatamente por ver a total falta de memória
e de arquivos. Há uma oportunidade fabulosa
de se fazer coisas novas num Teatro Nacional,
erguido numa capital nova, longe de tudo. Acredito
que a cultura é um poderoso aliado da melhoria
da qualidade de vida de uma urbe e por isso mesmo
merece toda a atenção e o apoio
da comunidade. Um teatro é o templo onde
se concentram essas forças projetadas pelas
manifestações culturais, onde a
comunidade vem receber os benefícios da
criatividade nas várias áreas da
arte, da beleza espiritual, da força redentora
e da visão de um mundo melhor que só
a verdadeira cultura nos sabe proporcionar. É
por isso que acho importante registrar a história
do Teatro Nacional, baseado em pesquisas e entrevistas
que já venho fazendo há bastante
tempo e que, espero, vão transformar-se
num testemunho para quem se interessa por cultivar
a memória desta cidade tão diferente,
tão única e tão apaixonante.
Quais os grandes momentos que você viveu
nesse teatro?
Fui desde muito jovem habituada a freqüentar
teatros. Quando aqui cheguei, a Sala Martins Pena
estava funcionando, embora um pouco precariamente.
Ainda cheguei a freqüentar concertos e recitais,
espetáculos de teatro e de ballet, mas
em setembro de 1976 a sala foi fechada para se
concluir todo o edifício. Finalmente, em
21 de abril 1981, assisti à inauguração
definitiva do Teatro Nacional com um concerto
da recém formada Orquestra Sinfônica
de Brasília sob regência do maestro
Claudio Santoro. Alguns meses mais tarde apresentou-se
o primeiro espetáculo lírico no
palco da Sala Villa-Lobos, a cantata cênica
Carmina Burana, de Carl Orff. Fui convidada, como
presidente da Associação Ópera-Brasília,
para colaborar com a então Fundação
Cultural na montagem, sobretudo criando os cenários
e alguns dos figurinos. Foi um êxito tão
grande que lotou a sala durante cinco noites,
e teve de ser repetida no ano seguinte. Creio
que estes dois momentos inesquecíveis foram
os mais emocionante que passei nestes 20 anos
de colaboração com o Teatro Nacional
de Brasília. Mas eu poderia citar ainda
o concerto da orquestra de Israel regida pelo
Zubin Mehta, o Balé Bolshoi com Spartacus,
a festa que boi o espetáculo do Boi de
Parintins, produzido pelo Fernando Bicudo, as
sopranos Cecilia Gaspoli e Aprille Mille e , recentemente,
a montagem de Um Baile de Máscaras, que
superou todas as montagens do Teatro Nacional
e revelou um tenor fantástico, o Boiko
Zvetanov.
E sobre o público hoje é seu usuário,
o que tem a dizer?
O público de hoje já é muito
diferente do público de há 20 anos.
Nos primeiros 15 anos, a informalidade da vida
em Brasília, a facilidade com que se freqüentava
o Teatro Nacional - a maior parte das vezes de
graça - a falta de convívio com
um ambiente de teatro tradicional fazia com que
o público chegasse tarde, entrasse em qualquer
momento, fazendo barulho, falando alto, conversando,
trazendo crianças pequenas com os inevitáveis
choros e corridas, etc. Nos concertos tudo era
aplaudido, sem conhecimento de que no fim dos
movimentos não cabem aplausos, apenas no
final. Mas, de um modo geral, o público
já sabe apreciar um concerto clássico
, um recital ou uma ópera em silêncio,
os retardatários são em número
bem menor e nota-se um hábito de comportamento
mais semelhante ao dos grandes teatros fora de
Brasília. Acredito que na mesma proporção
aumentou a exigência artística quanto
à qualidade dos espetáculos, o que
prova que o público evoluiu no bom sentido.
A seu ver, qual a grande demanda do teatro para
os próximos anos? O que precisa ser feito
para torná-lo ainda mais arrojado?
Acho imprescindível, nos próximos
anos, uma reforma total do Teatro Nacional, tanto
no aspecto físico e no conforto das suas
platéias, na recuperação
de várias áreas danificadas pelo
tempo e uso, na informatização dos
serviços de bilheteria, de informação,
na renovação dos quadros de pessoal,
na instalação de um restaurante
e uma lanchonete, no sistema de segurança,
e por fim, na projeção de uma programação
planejada com mais antecedência. Mas tudo
isso é bem mais fácil na teoria
do que na prática. A Secretaria de Estado
de Cultura vem empreendendo os maiores esforços
para conseguir realizar estas metas ideais, e
é justo que se diga que já conseguiu
uma considerável melhoria no atendimento
do público, no funcionamento do Teatro,
na programação muito intensa de
meados de janeiro até o Natal que cobre
todas as áreas de preferência do
vasto público que diariamente enche as
salas do Teatro Nacional.
Teatro Nacional de Brasília
Texto sem asssinatura publicado na Revista Brasília,
1962
O sentido novo que Brasília oferece aos
visitantes que observam suas ruas e trevos, suas
casas e blocos de apartamentos, escolas - continuação
do lar - igrejas sem torres com sino, teria que
ficar impresso também nos seus teatros.Junto
à Rodoviária, em área localizada
na Esplanada dos Ministérios, vê-se
uma enorme pirâmide sem ápice, mas
ladeada de vigas imensas fingindo suportes fincados
à terra. Sem dúvida, assume o caráter
de um monumento, despido de janelas, pouco comunicativo,
contrariando a extroversão dos outros edifícios
ministeriais vizinhos, abertos em vidro de cima
a baixo, que se deixam devassar aos olhos de todos
os que passam nas largas pistas.
O Teatro Nacional de Brasília
não se dá, não se comunica
externamente, simplesmente, superficialmente.
Insiste em convidar o transeunte a penetrar-lhe
o recinto, a descobrir o que acontece no seu interior,
a desvendar vidas imaginárias que se desenrolarão
no palco. A forma exterior, de paredes lisas,
caídas, indiferentes, é apenas,
(assim se expressou Oscar Niemeyer), o invólucro
necessário para deixar funcionar livremente
todos os tipos de teatro para o povo de Brasília.
Ópera, Ballet, Comédia ou Música
de Câmara.
Considerando a evolução
incessante da arte - teatro psicológico,
música concreta, - campos novos com exigências
novas, a construção das salas de
espetáculos visa poder adaptá-las
à natureza das obras que ali serão
apresentadas. Integrado na sua funcionalidade
como casa onde o público busca encontrar
vivência de todas as épocas históricas
através da encenação de peças
de todos os espetáculos, o Teatro Nacional
de Brasília procura essencialmente ser
flexível a qualquer modalidade de teatro,
sendo o seu interior desembaraçado de obstáculos
que impeçam o desenvolvimento dos trabalhos.
Decorreu dessa preocupação,
do cuidado de dar ao artista e ao público
um ambiente favorável ao melhor rendimento
cultural, a pirâmide que se descortina junto
a Rodoviária.Duas salas de espetáculos:
uma para duas mil pessoas contrapõe-se
a outra menor para quinhentas, cujas localidades,
dispostas em freqüente ao palco, nivelam
socialmente as camadas. Destaca-se apenas um camarote
presidencial. Os estudos de som e efeitos sonoros
foram confiados ao grande professor alemão
Lothar Cremer, nome dos mais destacados na atualidade
que se dedica com exclusividade ao assunto. A
seu cargo ficarão a colocação
das paredes e tetos interiores tendo em vista
a melhor qualidade de efeitos sonoros a ser obtida.
A conclusão da obra,
que ainda não tem data prevista, é
esperada com grande interesse e ansiedade, pois
que virá preencher uma lacuna enorme na
vida dos habitantes de Brasília, em sua
maioria já habituados a freqüentar
teatros e concertos. O acabamento final, que dependerá
em grande em grande parte da generosidade das
verbas que lhe forem destinadas, não conta
com esquemas definitivos e provavelmente poderá
enriquecer-se com novas sugestões que possam
ocorrer durante os trabalhos. Permanecerá,
todavia, inalterável o traço primeiro
que determinou a forma monumental, diferente,
funcional, dentro e fora do tronco da pirâmide,
mais uma criação que a Oscar Niemeyer
particularmente agrada, e a nós também.
Revista Brasília, maio
de 1961 a abril de 1962
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